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Fico aqui hoje...

                                 .                                   

 Somente às vezes tomo consciência de que a falta que sinto e está lá dentro não pode ser contada, ninguém o saberá, ultrapassa e amplifica os conceitos de razão ou possibilidade. E penso que não faz bem a você conviver com minha solidão; ela não tem nenhum luxo, não é poliglota, nunca usou cruzes nem psicanálises. Ela é dura e não sai com sabão nem oração de avó, é boca porca no corredor e atrás das portas.

Não entende que também sinto, e que minhas fibras de macho ofendido, contraídas todas, reclamam pela minha dose de loucura? Mas hoje não dá pra fugir de casa pois não conseguirei pular os muros, disfarçar a cara e sumir. Você pode ir e sem o menor escrúpulo de desejar, quem esconderia este cheiro? Eu não tenho que estar certo. Saia de estrondo e deixe a minha memória em paz, e não me dê sustos aparecendo na janela como quem quer nada e quer tudo, não entre de repente no meu único longo sono, não vem fazer cócegas no meu peito como quando me colocou doente. Saia apagando a imagem porque esta luz é coisa tua, ela pega a diligência e vai no vapor falando dos teus jeitos e da expressão que ela banhou por último... Tá vendo como fico? Começo a falar piegas e a lacrimejar sem conseguir unir o nexo da trama que crio para dois papéis.

Eu sei, sei disso. Na verdade eu sempre soube, mas nunca quis falar a você desta minha permanência na casa; talvez você estranhe porque tantas vezes lhe disse que eu gostava de partir e que meu pé não se cansaria se você ousasse viajar também. Vou ficar e vou cumprir a promessa, sei que jurei na carne, no sangue, no ID, no centro.

Porém, na condição de que eu fique aqui onde estou, você pode ir. Vá construir edifícios, juntar a argamassa, vá curar seus mortos, vá dançar balé, segurar a máscara, cuidar dos bichos, educar um filho porque eu vou fazer o que fiz ontem, toda a vida. Vou andar no asfalto que me é real e comprar o pão mais real, perder o ônibus, perder o pão, olhar o povo sem me sentir povo, julgar o homem sem que eu me sinta homem, vou sentir tesão, gozar sonhinho, limpar a mão, esperar o toque da campainha, dormir real sem ver se ficou bonito.

Fica com raiva não. Revelando agora não me perguntarão depois me incomodando nas ruas. Saberão assim que “meu lirismo não tem pedigree” e entenderão que o cabaré leu meu conto inédito e em pouco tempo aprenderam meu nome e – nas próximas duas danças - vão esquecer.



Escrito por Jorge Alessandro às 00h55
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