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"A lucidez perigosa"

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.

(Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo" Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1999)

Escrito por Jorge Alessandro às 09h58
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Escrito por Jorge Alessandro às 22h52
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Nada que mereça ser contado. Todos os meus estados de nervo são coisas já contadas pelo mais repetitivo prosador... Mas acho que ainda não falei que hoje arrumei a cama, logo eu, que nunca arrumo coisa alguma e por isso levo o fardo mais pesado, eu arrumei a cama...  eu mesmo me peguei no exato momento do meu flagra íntimo sorrindo da evidência. Mas há sempre um dia de graça, aceita! E eu aceitei que naquele momento eu era um pouco mais que eu, que eu me ultrapassava para arrumar o que eu jamais arrumaria, entendi que arrumar a cama era mais que arrumar a cama, era arrumar os ossos da casa, os pequenos sustentáculos do tenho dentro da casa, eu sei que eu pagava o pé de um pequeno mistério.

Quando coloquei o lençol, que só estava um pouco amassado sobre o fofo do colchão, confesso é que vi a mancha de meu desejo, pois nunca me limpo do que me foi bom, para que o sentido me repita na carne e me grave no fim do feliz não-retorno. Não me importa o que jogam no meu sexo, ele é puro como a carne, e erótico como a luz baixa, se o acaricio então Deus é amor, e não há dúvida, a glória se manifesta em mim em dias assim.

Passo a lembrança, arrumo os últimos desarranjos que eu mesmo causei e sei que a vida é para mim, ela me elegeu, e eu sou daqueles que sempre vai, sou dos que não negam nunca a voz tirana da matéria andante. Ninguém precisa me lembrar que ainda mantenho as louças na pilha dos não-tratados, sei disso, mas não vou para agora pois atraso eu não admito e continuo, pois santo eu não quero, não gosto! Suspendo o cinto, uso o luxo do espelho quando tantos aí fora não querem a si, finjo ser eu no mais infinito dos dias e vou pra rua.



Escrito por Jorge Alessandro às 22h50
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