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U M A C R O N I C A P A R A D I A S D E C H Á , A L M O F A D A E P A L A V R Ã O
D E S P E D I D A S
Aprendi muito cedo a arte de despedir. E eu mesmo com uma certa dificuldade é que acabei por faze-la arte - momento de proclamar a grandeza e onipotência do Senhor. Sempre conduzimos tudo ao costume - mania dos homens do nosso tempo – como aquele senhor que passa diante da coleção de jardins holandeses e continua a ler seu jornal. Estranho! As exóticas bem que mereciam sua atenção.
Sou um homem triste. Meu corpo é só ausência. É a cidade pequena que deixei, as duas que amei e a dúzia de quem lembro quando acredito em Deus. A tristeza é a despedida. Toda tristeza é uma ausência, é um sentimento ante uma beleza que se perdeu, um espaço vazio onde antes houve um encontro, uma mutilação em meu corpo.
Tive um professor que, mais tarde, numa biblioteca, esbarramos na pesquisa de um mesmo tema versado. Naquele dia, não pegamos livro algum, mas fomos ler o Atlântico numa tarde de semana, caminhamos algumas métricas falando de nossas viagens, de Deus e suas viagens, comunidades judias e outros assuntos intrometidos. Fomos assim, até que o sol fosse embora - maneira estranha de despedida é o crepúsculo - quando chegou a nossa vez, e eis porque a lembrança deste amigo, ele disse em pincelada de brincadeira: Adeus! E como se costuma dizer, para consolar as partes que partem, ascendendo nelas a esperança de um novo encontro: até as pedras se encontram! Eu mesmo me utilizei disso uma ou duas vezes: Não liga, Marcelo! Até as pedras se encontram! Mas confesso, ainda não compreender plenamente o processo deste consolo.
Imaginei que alguém pudesse, andando, tropeçar numa pedra e depois de dizer umas poucas e boas, atirá-la mais longe que sua ira. Esta pedra bateria em outros corpos e quando acalmasse o seu percurso encontraria outras pedras, e outras pedras seriam atiradas em outras pedras, de novos pedregulhos para novos pedregulhos, nesta louca interação das rochas. Não sei se entendi bem o conteúdo daquilo que esperava ser o prenúncio de um reencontro, nem sei se verei novamente o professor ou o amigo - já despedi-me há muito tempo - mas agora, não posso evitar, toda vez que vejo uma pedra sozinha apanho-a e a deixo ao lado de outra.
Escrito por Jorge Alessandro às 02h04
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Essa turma é muito boa...

Escrito por Jorge Alessandro às 21h28
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TAÍ MAIS UM ESPAÇO PARA QUE AS PALAVRAS ESCAPEM...

Escrito por Jorge Alessandro às 21h56
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( M e t a ) l i n g u a g e m d o s i l ê n c i o
Precisei de um poema um outro dia. Senti tudo o que se sente quando se precisa da Palavra – escrita, li poemários, romances, jornais e um amarelado livro de receitas. Silenciosamente no quarto, como quem conta coisas ao vento - este ouvido de todos.
Somei alto todas as minhas vozes, juntei, com cuidado devido, os pedaços de unhas que ficaram no lugar em que moramos os bilhetes que levo no bolso da calça azul ,e... como era esbelto o poema, o poema estava ali. Todo poema. Só pensei os versos, e os versos não me permitiram nada. Havia uma curva tão bem feita, e tão certa, e tão medida, que inda não podia ser minha a curva, só pensei a curva. Quis um pássaro no poema, mas o poema – era perfeito – não aceitava pássaros. Um equilíbrio que não existe nos poetas havia em meu poema. Tudo muito bem concatenado nem lágrimas, nem bocas demais. E, num lance, os verbos desejavam o meu – era meu - poema... Coisa, assim, nunca se ouviu e eu, com olheiras profundas, juntava o poema.
“Eis que levamos riquezas em vasilhas de barro” quis dessas metáforas de terra em meu poema, mas o poema era perfeito demais e recusou minhas metáforas com altivez preclara. Noutro dia, escutava as goteiras batendo o pé e acompanhando a melodia, tentei gritar, rebeldemente, aquele poema, porém, - ele não era tão meu quanto eu dele - como diabos, me enganchou na goela um adjetivo daqueles perfeitos, de arestas compridas e malditos pela beleza e vaidade. Pude falar muito pouco, dobrei-me pouco e todo, ficando quieto, apoiado em nada e com apenas uma esperança: uma caneta fortemente trancada em minha mão Pela virgem! Que poema lustroso! A garganta foi ficando livre, era tarde para mim, o ar me traia com piedade que se deve aos mortos. Fiquei assim pra sempre. Preso à caneta sem poder movê-la, ela na impotência de mover-me pra qualquer parte que seja. O poema calou-se, nunca mais o vi (...) A garganta ficou inutilizada, (...) a caneta não falou nada. (...) O poema era perfeito demais pra existir.
Escrito por Jorge Alessandro às 21h39
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P A L A V R A S S U J A S
"Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
estão paralisados, mas não há desespero (...)"
Carlos Drummond
Nas minhas brigas com a palavra, descubro um dos seus mais novos predicativos. A palavra é suja... ela joga sujo. Somos sempre pegados por ela de surpresa, nunca sabemos exatamente a hora do susto; quando a queremos mais que tudo, ela nos falta nos deixando numa orfandade da frase, do diálogo, do texto. Ela é suja, ela se suja, talvez porque não queira ser vista, talvez porque não queira revista em seu corpo de significante. O sinal mais forte da sujeira que ela carrega são as manchas com que nos marca. Somos marcados por ela, pelo seu poder de palavra. Somos reconhecidos nas esquinas de nossos atos falhos, na descabida medida de nosso discurso. A palavra se suja de metáforas, de sonoridade cristalina, de musgo, porra, fel, se suja da repulsiva limpeza sintática, dos malabares semânticos. Apostamos nossas fichas no jogo-sem-fim das múltiplas possibilidades do signo, e em recompensa nos é dado somente gozar as imagens caleidoscópicas destas línguas porcas.
Palavras sujas de bocas sujas empurradas morro abaixo pela insustentável vontade de dizer.
Jorge Alessandro 19/09/2004
Escrito por Jorge Alessandro às 21h18
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